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Herança

  • Foto do escritor: Sandra Tavares
    Sandra Tavares
  • 23 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Sabe aquela frase clichê de que "é no sofrimento que vem o aprendizado"? O clichê é bem certeiro viu. Vivi 4 longos anos entre regularizar as casas de meus pais para depois passar os bens a minha irmã que, de comum acordo, tornou-se a herdeira.

A minha herança foi o aprendizado da jornada e tbm algo de material. No processo, altos e baixos de choro, tristeza, luto, medicações, recursos como a terapia, yoga, qi gong, tai chi, meditação...oração...sem os quais com certeza a jornada não teria chegado ao fim. Mas chegou.

O processo, já na reta final, se confundiu com a adaptação à Santa Teresa, uma nova cidade. Com as dificuldades do adolescente estudando aqui. O recurso último foi retornar às missas de domingo. Eu quando jovem tinha o hábito de ir às missas de domingo. E quando não tinha padre e era feita celebração, até homilia da leitura do dia chegava a fazer.


Na Igreja Matriz aqui de Santa Teresa, como se pode deduzir, tem a santa da cidade: Santa Teresa D'Ávila. Confesso que quando vi a imagem pela primeira vez, achei ela bem assustadora. Ela carrega um livro na mão onde está escrito "Aut Pati, Aut Mori", cujo significado fui imediatamente buscar no celular e achei: "Ou sofrer, ou morrer".


Fiquei por um tempo pensando na frase, achando ela terrível. Como assim "ou sofrer, ou morrer"???? Por um acaso a vida seria isso? Somente sofrimento e morte? Onde ficam as alegrias da vida, os sorrisos? Fiquei bem desconfiada com essa frase dessa santa. Foi quando comecei a fazer uma conexão com o budismo, que afirma"sofrimento é vida". Quando a gente lê essas duas frases fica meio p da vida com essa Teresa D´Ávila e Buda.

Olha, meditei um bom tempo sobre essas frases e cheguei à seguinte conclusão. "Ou sofrer, ou morrer" para mim significa que ou a gente tá vivo, e ao estar vivo lida com os percalços da vida, ou a gente não está mais aqui nesse plano físico e fez a passagem. E se o 'sofrimento é vida', é porque o sofrimento é algo inerente à vida. Não existe pessoa viva que não passe por algum tipo de sofrimento.

Então voltando à minha herança, o sofrimento e aprendizado da jornada. Chorei sim, e não foi uma nem duas vezes, mas muitas...incontáveis vezes. Rezei sem contar as orações. Meditei. O aprendizado foi saber hoje regularizar um imóvel, com apoio de minha querida e paciente Ellen Assad, foi ter conhecido pessoas com história guerreira, como a advogada Paula Aquino, foi compreender como o mundo cartorial é injusto e explora o povo com preços absurdos e precisa de uma reforma urgentíssima. Foi entender que o tempo de um órgão como a SEDUR-Prefeitura da Serra, é moroso, porque faltam servidores suficientes e talvez melhor qualificação para um atendimento mais ágil ao povo. O aprendizado foi rever uma pessoa muito querida, que foi a 2a esposa de meu pai: Izonete Pinheiro, que a gente sempre chamou de Andréia. Ao visita-la ela me encheu de aprendizados. Uma guerreira. E que foi de uma amorosidade conosco, que nunca terei palavras para traduzir.

A herança foi entender que tudo o que aqui fazemos, no mundo real, se reflete no mundo jurídico. E que se quizermos pular etapas, e "dar pulinhos", a conta chega para pagar. De um jeito ou de outro. Que devemos seguir fazendo e agindo de forma correta, no mundo real pois se refletirá no mundo jurídico. Aprendi que o combinado de boca e de coração não servem pra nada. O combinado da intenção boa, no mundo jurídico não vale nada, se não estiver escrito e assinado pelos bem intencionados.

Tem duas frases que já ouvi nessa vida em momentos distintos, e que achei super duras. São elas: 'família é bom em porta-retrato', e 'a gente conhece a família no inventário'. Discordo da primeira porque tem pessoas que amamos muito e que não queremos apenas em porta-retratos. Mas a segunda tem um 'quê' de realidade, sim. A gente vê quem está ali junto conosco (no processo doloroso de um inventário - eno meu caso 2 inventários) pelo amor, pela compaixão, pelo quinhão, ou mesmo INDIFERENTE. A gente sabe que enfrentará discordâncias. Isso é humano. O caminho? Dialogar, chegar a um acordo sobre a melhor solução que envolva a todos.


Mas não dá pra fingir que laços sanguíneos significam alguma coisa quando se abandona o outro à própria sorte; quando se pensa em si próprio, quando se mantém indiferente ao que está acontecedo, quando se guarda orgulho, rancor, mágoa ou ressentimento, ou mesmo quando ainda não se alcancou a maturidade necessária, seja pelo conhecimento, seja pela dor. Alguns seguem precisando de ajuda e sigo orando por pessoas assim.

Você revê quem você quer na sua vida. Quando o pai e a mãe da gente não estão mais aqui, a gente se liberta de uma espécie de missão de achar que todos permanecerão unidos e que a gente é alguma espécie de exemplo, de responsável por manter a 'liga'.

O que é união, afinal? Creio mais que a verdadeira união - comum união - signifique cuidar de si, da sua conexão com o Altíssimo, da melhor maneira possível. Recebi muitos "Não. Eu não posso. Eu não tenho." ao longo desse processo. Exatamente de quem a gente chama de família 'de sangue'.


E no dia D, na hora combinada, saber que todos podiam, sem questionar, estar ali...isso faz você rever e APRENDER muita coisa. Vivi para ver uma assinatura e o 'dar de costas', sem nem olhar para trás. A minha humanidade me impede de viver algo assim, e de ainda não permanecer estupefata.


Em mim ficam e permanecem o sentimento de Gratidão, pelo aprendizado. Recebi com o coração puro e aberto a minha Herança. Inicia um Novo Ciclo pra mim. Essa música de Vozes da Terra expressam bem. Sei que ainda virão outros aprendizados...isso está na vida.


MAS ME AGARRO ÀS MUITAS ALEGRIAS E SORRISOS QUE TBM VIRÃO!!!!



PS.: O que recebi de herança material de meu pai, guardados os meus gastos para fazer tudo se concluir, quitei nosso único imóvel da família, ainda financiado. Guardarei pra sempre o imaterial que ele me deixou: o Amor.



"Aut pati, aut mori. Ou sofrer, ou morrer". Sta Teresa D´Ávila

"Sofrimento é vida". Buda

 
 
 

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